Ela
respirou fundo após um daqueles orgasmos maravilhosos e pensou, “de toda minha
loucura a melhor delas é fazer isso aqui valer a pena”.
Clara
não gostava do próprio nome porque em nada traduzia a pessoa obscura que ela se
considerava, mas também não usava apelidos por que detestava-os, dizia também
na frente do espelho várias vezes que só podia ter sido plantada no seio
daquela família por um OVNI, cada um com seus pensamentos insanos, e as vezes
eu tinha impressão de que ela gostava de ser assim, parecia que era o céu, o
inferno, o limbo ou sei lá o quê, mas o fato é que havia sempre intensidade e
insanidade. Pensando bem, o céu não, tudo, menos o céu, Clara não acreditava em
nada que fosse descrito como perfeito.
Desde que
a conheci, ouvia falar de suas conquistas, gostava de homens negros, gostava de
homens inteligentes, gostava de homens e de mulheres também, dizia que o
importante era a essência de cada pessoa e que sexualidade não é pra ser
limitada, já bastam os limites sociais que impõem que não podemos ir até certo
ponto por causa dessa coisa chula de “ah, mas vão falar mal de você...”, essa
sociedade vestida de hipocrisia que cobra de nós um bom comportamento, quando
na verdade, eles mesmos são sujos e alguns ainda dizem-se religiosos. Quando
mais jovem não se preocupava com isso e os frutos vieram com o passar dos anos
e uma imagem da vida adulta que ainda resplandecia a de uma adolescente
deteriorada pelo próprio comportamento. Ela mudou, mas o que fazer com a imagem
que preferiam lhe atribuir? Acho que nada, essa história de provar alguma coisa
pra alguém é muito cansativa.
Mas
vamos falar da sexualidade, como havia narrado anteriormente, Clara divagava em
pensamentos após um orgasmo, esteve o dia inteiro trancafiada em um motel com
um estranho que havia conhecido pela internet e estava encantada com o
intelecto e o aparente mistério daquele negro cor de “minha nossa isso é um
pecado”. Haviam batido papo a madrugada inteira e decidiram que se encontrariam
pela manhã na beira de uma praia mais próxima, estavam incontroláveis de tesão,
e o encontro foi do jeito que ela esperava, nenhum dos dois escondeu a vontade,
se cumprimentaram com um beijo ardente, cheio de abraços apertados, caricias
pelo corpo, línguas frenéticas, não havia como fugir, entraram no carro dele e
seguiram ao motel mais próximo pensando em matar o desejo por uma ou duas
horas, assumindo os atrasos em todos os compromissos.
Já era
em média 17:00 horas, haviam almoçado, passado algum tempo naquela banheira
convidativa, tomaram duas garrafas de um bom vinho, conversado sobre várias
coisas, que inclusive era algo que ela apreciava bastante, falaram de trabalho,
de família, de política, de sociedade, e em determinado momento, ela aproveitou
para dizer-lhe que era “louca”, ele sorriu, incomodada ela perguntou, - qual o
motivo da risada?
- Clara
se você é louca, o mundo todo precisa ser louco como você, acho que nunca
conheci alguém tão normal. É uma louca linda, cheia de autoconfiança, uma
pessoa incrível!
Ela
passou a explicar-lhe sobre suas alterações de humor, sua sexualidade aguçada,
seu costume de falar, falar e falar, são derivadas de um transtorno, transtorno
da personalidade limítrofe, mais conhecido por Transtorno Borderline. Ele ouvia
tudo com atenção, depois não comentou mais nada, o que para ela significava que
ele havia entendido e quando o homem entende isso, ela passa a considerar o
encontro único, singular, considerava que homens não tem paciência com mulheres
problemáticas, o que não deixava de ser verdade, e por esse motivo, há alguns
anos havia decidido que não se apaixonaria, já sofrera demais ao ser abandonada
e chamada de louca, conhecia os limites do seu emocional e preferia sofrer da
ausência de amor do que a incompreensão e palavras agressivas, conseguia lidar
com isso.
Transaram
mais algumas vezes, fizeram algumas ligações para justificar ambas as ausências
nos compromissos, foi até engraçado, cada mentira contada tão verdadeiramente
que dava pra convencer até a sua santidade, o Papa.
As 11:00
da noite o carro dele entrava no bairro onde ela morava, e como sempre fazia
com os seus casos, ela pedia pra entrar em uma rua após a que morava, para não
dar a residência especifica, afinal de contas, não queria ninguém achando que
iria bater na sua porta a hora que quisesse, “não é assim que a banda toca”. A
despedida foi longa, muitos beijos, troca de carinhos, e enfim ela desceu do
carro, acenou, e o observou ir embora.
Eram
8:00 horas da manhã do dia seguinte quando Clara despertou atrasada e correu
pra pegar um ônibus e chegar a faculdade, no caminho as lembranças do dia
anterior lhe vinham a memória, lembrou-se de que após a despedida ela bateu a
porta do quarto atrás de si e pôs-se a chorar, ela não podia acreditar que
aquilo estava acontecendo, estava completamente apaixonada, conhecia aquele
sentimento e sabia que não só podia como deveria afastar-se dele, sabia que
amores não eram pra ela, e decidiu que aquele dia, aquela pessoa, tudo aquilo
seria só uma lembrança boa, apagaria o número de telefone e evitaria vê-lo
novamente, dizia ela sempre “eu conheço
os homens, eles gostam mesmo é de uma mulher que não pegue no pé e lhe
proporcione orgasmos intensos, a fora isso, não se iluda minha cara colega, ele
não vai te propor, você, ele, dois filhos e um cachorro”. Clara não queria de
fato um homem pra dividir as alegrias, pra infiltra-lo em sua família, e coisas
do tipo, achava aquilo chato, brega, monótono.
Largou
da faculdade e se dirigia com pressa ao trabalho pra chegar mais cedo e começar
a compensar a falta do dia anterior, e entre uns livros, uns cadernos e uma
bolsa bagunçada, um calor dentro do ônibus e o suor fazendo os cabelos grudarem
ao pescoço, o celular toca, depois de muito procurar revirando a bolsa, achou,
e quem era? Na tela ‘Ligação perdida de Júlio’. Como a ligação não foi
atendida, imaginou que ele tentaria novamente, pôs o celular no silencioso e
seguiu. Ao fim do expediente pegou no celular achando que teria várias ligações
perdidas, já se achando uma babaca pelo que estava a pensar, mas para sua
surpresa, não havia nenhuma. Desapontada, pegou suas coisas e se encaminhou
para as catracas do trabalho que dava acesso a saída, passou o crachá para
liberação e catou na bolsa um cigarro, acendeu, e ia completamente distraída
pela calçada quando avistou aquele homem charmoso dentro de uma bermuda branca
e uma camisa de botões com estampa xadrez, encostado ao carro com as mão nos
bolsos e sorrindo, ela parou, respirando ofegante e logo se imaginou num motel
novamente, aquela altura não tinha como pensar em afastar o cara, ele estava
ali com aquele sorriso convidativo, que se dane, abraçaram-se e beijaram-se
apressadamente e sem dizer uma palavra sequer. Depois de uma conversa animada
sobre alguns acontecimentos do dia, estavam em um motel finíssimo, entre uma transa e outra ficavam se
entreolhando silenciosamente, estava com medo daquilo, com muito medo,
simplesmente porque era muito bom, e coisas assim tão boas normalmente duram
muito pouco, será que o ideal mesmo era se jogar de cabeça pra aproveitar o
tempo que aquilo iria durar? Perguntou
como ele a achou no trabalho, ele deu risada e lembrou-a que conversaram muitas
coisas na madrugada em que se conheceram e ela havia dito que trabalhava no
ramo tal e em tal localização, ele só precisou arriscar, e acreditava que tinha
um bom “faro”. Foi tudo maravilhoso,
mais uma vez se despediram com aquele clima de quem não quer ir embora.
Três
meses já haviam se passado desde o primeiro encontro de Clara e Júlio, eles não
deram nome a relação, mas havia alguma relação,
se falavam todos os dias, trocavam mensagens durante o dia pelo
whatsapp, e a noite ficavam algum tempo falando ao telefone, a rotina estava
sendo boa, não havia cobranças, não havia ansiedade, de fato, Júlio fazia bem
pra ela. Um dia, não houve mensagens, nem ligações, ela pensou que ele estava
muito ocupado naquele dia, esperaria o dia seguinte, e nada aconteceu, nem no
dia seguinte, nem nos próximos 20 dias que sucederam. Clara estava totalmente
absorta nas lembranças ao lado de Júlio, dia e noite se perguntava porque havia
caído naquela armadilha emocional, mais uma vez entrou em uma crise
existencial, chorava nas madrugadas e se isolava durante o dia, falava com os
colegas de trabalho somente o necessário, odiava alguém chamando seu nome e
muitas vezes era ríspida com as pessoas, em casa com a família que ela já não
suportava, as coisas haviam ficado piores, andava como se houvesse pairado
sobre sua cabeça uma nuvem negra. Sabia que não era uma mulher linda de
despertar interesse em um homem como aquele, pelo menos agora ela enxergava
isso, mas outrora, se sentia confiante, linda e inteligente, o suficiente pra
estar a altura daquele cara, Júlio a fazia sentir uma pessoa normal, até andava
pensando se deveria falar com ele sobre conhecer a família, passear com os
amigos, fazer coisas de casal. Ela estava se odiando. Em uma dessas noites
entrou num bate papo e conversou com um cara qualquer, ele chamou pra tomar um chopp,
e apesar da avançada hora, ela se arrumou e foi ao encontro dele, parecia um
cara educado, começou conversando bem, mas em menos de 20 minutos já pegava na
mão dela, tentava beijar e chamou pra um motel, inconscientemente, ela queria
achar naquele cara qualquer coisa que lembrasse Júlio, aceitou ir. Clara não se
reconhecia como uma mulher carinhosa na cama,
gostava de umas práticas vulgares, despudoradas, e naquele dia ela
libertou a senhora obscena que havia dentro dela, falou pra o individuo que não
a procurasse mais, deixou-o sozinho no quarto de motel e pegou um taxi pra
casa. Chegou em casa sentindo-se a pior das messalinas, sentia nojo do que
havia feito e não entendia o porque, uma vez que antes de Júlio ela era bem
acostumada e tranquila com aquilo, com a vidinha de merda sem amor que tinha,
porque isso agora? Tomou um comprimido de clonazepam e mais um de
carbamazepina, há tempos tentava se livrar daquelas medicações que a faziam
sentir louca de verdade, mas agora não via outra solução, iria chorar a
madrugada inteira e provavelmente sentiria vontade cortar os pulsos, então
simplesmente tomou e apagou.
Clara
havia sido diagnosticada com transtorno limítrofe após 2 anos de terapia e mais
um ano de psicotrópico, odiava a ideia de ter que entrar em um consultório de
psiquiatria, mas devido ao inferno que
era sua vida, deu o braço a torcer, nunca fez o uso cem por cento correto da
medicação porque ela gostava de beber, gostava de boemia, sair pra dançar, ver
gente e ficar bêbada, tinha um enorme prazer em se alcoolizar, como se fosse um
impulso pra esquecer alguma coisa, ou ter coragem pra ser quem realmente era
sem ter que se culpar, afinal culpar a bebida era mais fácil, e em decorrência
desses comportamentos, ela perdia amigos, transava com estranhos e estranhas,
gastava muito. Carregava consigo traumas de infância que iam de abandono dos
pais e abuso sexual, abandono emocional familiar completo, uma adolescência
arredia, improdutiva, perturbada, complicada. Chegara aos seus 30 anos sendo um
caco de pessoa, ainda estudava pra não enlouquecer, gostava de ler e debater
assuntos importantes e pertinentes, exceto quando entrava em crise e se isolava,
ai era questão de tempo, tomar remédios, dormir, se arrastar nas obrigações do
dia a dia e esperar melhorar.
Depois
de tomar os comprimidos e dormir exageradamente, Clara despertou lembrando de
sua aula na faculdade e de algumas coisas que não poderia delegar e teria de ir
ao trabalho contra sua vontade, nem sequer se mexia, passou longos minutos
olhando para o teto do quarto e absorvendo o barulho da casa, da família que
ela não suportava, acabou dormindo novamente, queria se levantar, mas não
conseguia, neste dia, faltou a aula, faltou ao trabalho, apenas dormiu. Aquele
era o vigésimo dia do silencio de Júlio, ela já concluíra o quanto fora ingênua,
logo ela que não se deixava levar por sentimentalismos. O dia se passou, eram
em média umas 18:00 horas quando o celular já quase sem bateria, em cima de uma
mesinha, fazia barulho de várias mensagens chegando, já que precisava ir ao
banheiro, passou na mesinha e deu uma olhada na tela, ficou estática, chegaram
20 mensagens, e a última delas dizia, “eu amo você”, era Júlio que havia
respondido cada uma das 20 mensagens que ela havia mandado, uma por dia, a
maioria delas dizia “porque? Volta pra mim!”, e uma das ultimas dizia “vou
morrer e a culpa é sua”. Antes que ela pudesse abrir todas as mensagens o
celular descarregou. Teve de controlar a ânsia, esperar pra ler as mensagens
uma por uma, mas sentiu durante esse pequeno espaço de tempo um sentimento bom
e crescente, já não havia nuvem negra.
Júlio apareceu naquele bar da praia onde haviam se
encontrado a primeira vez, beijaram-se, abraçaram-se, mas não com a mesma
intensidade que denota o tesão, sim com a leveza de quem demonstra saudade e
carinho, ele propôs que fossem a um motel, de imediato ela recusou, -acho que
temos coisas pra conversar, você some por todo esse tempo sem me dizer
absolutamente nada, volta e diz que me ama, e já pensa em sexo? Não!
- Sim, de fato temos algo pra conversar, mas não pode ser
aqui, prometo que vamos ao motel somente pra conversarmos, me dê essa chance! –
falou em tom de quem se desculpa.
Ela concordou e então foram em silêncio, apenas observava
ele dirigindo com atenção enquanto divagava sobre o que ele tinha pra contar,
percebeu em seu braço um corte, não muito grande, mas com cara de que doeu, só
que já estava sarando, alisou o braço e perguntou o que houve, sem respostas.
Já na suíte do motel ela sentou-se na cama sem conseguir conter as lágrimas e
toda angustia que a consumira durante 20 dias, gritou, esmurrou seu peito
quando ele tentou controlar seu corpo enfurecido e se debatendo, com que
direito ele fez aquilo? A fez se apaixonar e sumiu! Poderia ter sido qualquer
outra mulher, mas porque ela que já tinha problemas demais? A resposta que ela
precisava veio num grito que ele deu; “eu faço parte de uma quadrilha!”. De
repente só se ouvia o som do ar condicionado ligado. O silêncio não durou
muito, logo ela estava abraçada a ele beijando-o e arrancando suas roupas e a
transa foi a mais selvagem desde que se conheceram.
Estavam deitados e abraçados olhando para um espelho no teto
em silêncio quando finalmente o silêncio foi quebrado.
- Qualquer coisa é melhor do que você dizer não me ama. Você
realmente me ama Júlio? Preciso que você diga, preciso ouvir da sua boca, você
me ama?
-Eu tive várias dúvidas sobre isso, não sei lidar com
sentimentos, mas sinto por você algo diferente e muito forte, sinto sua falta,
falta da sua voz, do seu comportamento exagerado e do quanto você fala, sabia
que você fala demais? Eu presumo que isso seja amor, mas também preciso saber o
que você sente. Clara, eu estarei ausente várias vezes, estarei incomunicável,
e algumas vezes pode durar mais que apenas 20 dias, estou apostando todas as
fichas nesse momento, será que você vai me esperar todas vezes? Será que vai
ficar bem? Será que... são tantas as perguntas, mas sei que não preciso fazer
todas elas, preciso saber o que você tem a dizer, como se sente agora que sabe
que eu faço coisas que estão fora da lei. E ainda preciso admitir, eu gosto do
que faço, não machuco ninguém, mas gosto do que ganho com isso. Esse corte no
meu braço, você me perguntou, eu me machuquei porque me joguei de um barranco,
estava fugindo da polícia. E sou muito bom nisso!
Clara respirou calmamente e apenas disse: - Estou com você!
Já havia se passado um ano que estavam juntos, Clara se
preocupava quando ele sumia, mas não ficava a sua procura, só esperava. Ele
sempre voltava, voltava carinhoso, trazia mimos, tinham uma química sexual
perfeita. Clara fazia planos, pensava que um dia ele poderia largar essa vida
por ela, até que um dia resolveu falar sobre esses planos, e não sentiu muita
receptividade da parte dele, sorriu e mudou de assunto. Ela percebeu que não
deveria insistir, talvez fosse muito cedo pra falar no assunto.
Desde o ultimo encontro, no prazo de seis meses, haviam se
visto apenas duas vezes e Clara estava bem ocupada com uns projetos do seu
trabalho, que não sentiu tanta falta, faltava um mês para estar de férias e em
uma conversa pelo telefone, pediu pra que ele se organizasse pra passar com ela
pelo menos uma semana das férias, ele concordou, disse que faria o possível
para fazerem uma viagem. O mês das férias chegou, estava entusiasmada, há um tempo não tomava remédios,
se sentia bem, pelo menos achava que sentia. Mandou mensagens querendo combinar
em qual semana viajariam, sem êxito nas respostas. Estava de férias já há 15
dias, havia saído com amigos, curtido praia, cinema e aquela espera que começou
incomodar. Recebeu um convite pra viajar pro litoral do estado vizinho e
decidiu ir sozinha mesmo. Aquela semana foi longa, ela foi a praia todos os
dias, curtiu uma piscina e em alguns momentos percebeu que andava bebendo
muito, andava de ressaca há uns dias. Estava tentando esquecer que ele sumiu
quando ela mais o esperava, pensava que se ele havia prometido, ele cumpriria.
Antes de voltar pra sua cidade, decidiu ir em uma boate com um casal de amigos,
acabou ficando bêbada, falou sobre a condição dele para aquelas pessoas, não
aguentava mais guardar pra si. Arrependeu-se, mas já era tarde. A madrugada de
musica e bebedeira terminou num quarto de motel com o casal, coisa que mais
tarde ela também arrepender-se-ia amargamente. Naquele dia, ela deixou-se fotografar, não
estava dando-se conta do perigo que isso representa nos dias atuais. Clara voltou pra casa com
uma certeza, não iria conseguir viver daquele jeito, ou enlouqueceria de vez,
adoeceria de amor ou na melhor das hipóteses, teria uma doença no fígado se todas
as vezes que ficasse mal, afogasse isso nas garrafas de cerveja.
O mês havia praticamente acabado, faltavam cinco dias pra
voltar ao trabalho quando descobriu todas as mensagens enviadas haviam sido
finalmente entregues a Júlio, ele estava lá “online” e não respondia uma
sequer. Enviou mais uma “por onde você
andou?”, mas era tarde da noite, a única resposta que obteve foi “durma, depois
conversamos”, “você é louco? Talvez até mais louco que eu”, “durma Clara,
depois nós conversamos”.
Obvio que ela não dormiu, ficou ansiosa, estressada, tendo
uma crise de nervos que fazia seus músculos sofrerem espasmos, não controlava
aquilo, era raiva, muita raiva, nem sabia de onde vinha tanta raiva, e começou
a ficar paranoica, não era possível que ele tinha a tinha deixado esperando por
um mês e agora nem sequer ela merecia uma explicação? Aquilo era imediato,
estava consumindo-a por dentro. Tomou um de seus remédios e acabou dormindo um
pouco, mas já eram cinco da manhã, as oito ela já estava de pé e se recusava a
fazer qualquer coisa naquele dia que não fosse resolver esse assunto, tomou um
banho decidida, se arrumou e saiu.
Já estava naquele bar de sempre tomando uma cerveja as dez
da manhã e ligou várias vezes pra ele, sem sucesso. Tomou mais uma, duas, três,
continuava ligando e só ouvia a voz da caixa eletrônica, até que finalmente, o
telefone chamou, “alô? Clara?, onde você está?”, “estou no mesmo bar de sempre,
na praia, vou esperar apenas meia hora até que você esteja aqui, caso
contrário, esqueça que um dia me conheceu”.
E ele chegou. Não a tocou, não a abraçou, não havia aquele
olhar sedutor. Estava frio e distante e ela não conseguia entender, se era ela
quem havia ficado esperando um mês por uma viajem romântica, espere ai, eu sou
a vitima aqui, o que ele está pensando? Fez menção de começar a falar mas ele
não deixou.
-Clara, eu sempre achei todas as suas loucuras um charme, te
acho uma pessoa incrível e não quero perder o respeito por você. Todas as vezes
que eu te prometi algo eu cumpri, talvez não no seu tempo, mas no meu tempo,
talvez muitas coisas tenham te desagradado com relação as minhas ausências e eu
te entendo, entendo, mas por isso aqui eu não te perdoo.
Foi quando ele puxou o tablet e começou a abrir uma página
do facebook que ela nem sequer sabia que Júlio usava, e lá estavam várias fotos
daquela noite de férias em que ela esteve em um motel com o casal de “amigos”, a maioria das
fotos cortava o seu rosto, outras foram editadas e o rosto foi borrado, estavam
postadas em um grupo de sacanagem, Júlio a reconheceu pela cor da pele, as
mechas no cabelo em tom de vermelho e principalmente, as suas várias tatuagens
espalhadas pelo corpo, incluindo uma que havia feito recentemente na altura da
cintura e trazia escrito “carpe dien”, em referência ao dia em que se
conheceram. Não havia como negar aquilo e ela começou a tentar se explicar sem
sucesso, ele apenas disse que seguisse seu caminho e o esquecesse, ao levantar
e dar as costas, Clara só conseguia pronunciar entre as lágrimas, a palavra
covarde. Soluçando copiosamente, vi-o entrar no carro, sem olhar pra trás, dar
partida sem olhar pra trás, sumir por entre os outros carros sem olhar pra
trás. Naquele dia Clara só chegou em casa perto da meia noite, mal conseguia
descer do taxi, estava completamente bêbada, com os sapatos nas mãos, os
cabelos desgrenhados e as roupas sujas. A família já dormia e não a viu chegar,
conseguiu tomar um banho e dormir depois de vomitar quase a própria alma.
Os dias se passaram até que chegou a data de sua volta ao
trabalho e ela estava lá. Silenciosa, com uma fisionomia meio perdida, mas
desempenhou o seu trabalho sem grandes emoções, recebeu as boas vindas dos
amigos sem grandes emoções, apenas respondia “obrigado” sem mal levantar o
olhar.
No mesmo dia em que voltara ao trabalho, eu e Clara nos
conhecemos, eu havia sido indicada a ela por manter uma sala para sessões de
terapia bem próximo ao seu a seu local de trabalho. Começamos muito mal, ela
não sabia porque havia procurado uma terapia, mas disse que se eu pudesse
apenas ouvi-la sem dizer nada, ela voltaria sempre, eu concordei, claro que em
algum momento ela me permitiria fazer intervenções , mas eu esperaria o tempo
dela.
Nos encontrávamos todas as semanas, ela sentava, falava
sobre sua infância, sobre seus projetos falidos, sobre os fracassos amorosos,
sobre os problemas dos amigos, mas eu sabia que havia algo bem maior a se
contar. Seguimos em nossos encontros, semanas após semanas, até que um dia ela
me perguntou porque das pessoas serem ruins, não sabia se ela queria de fato
respostas ou se eu apenas deveria ouvir, ai ela me encarou nos olhos e
disse: -ele foi embora, me deixou porque
as pessoas são ruins, sabe, eu posso ser louca, mas as pessoas, elas são mesmo
ruins. Levantou-se e foi embora. Ela havia encontrado o fio da meada, se estava
perdida ou seja qual fosse o motivo que não lhe permitia falar, naquele dia eu
sei, ela quebrou as correntes.
Nas sessões que seguiram, pouco a pouco fui montando o
mosaico da vida dela, tantas peças
perdidas, tantos traumas, uma vida adulta povoada por monstros de
infância e adolescência, tanto medo da rejeição, tanto medo do abandono, e ali
estava ela completamente abandonada. Determinada vez sugeri que alguém da
família dela poderia vir conversar comigo caso ela quisesse e permitisse, pra
que eu pudesse ter mais informações sobre a óptica de quem a conhecia muito
mais que eu. –Minha família não se
importa comigo de fato, vai perder seu tempo com eles, mas se quiser, pode
ligar. E me passou um numero de telefone. De fato liguei, falei com alguém que
disse ser uma pessoa muito ocupada e não tinha tempo pra se preocupar com casos
perdidos. Passei a absorver a vida de Clara pra mim, esperava por ela ansiosa
todas as semanas, já havia me dado o aval para as intervenções necessárias,
pouco a pouco me contou sobre toda a história de Júlio, e ao fim, eu precisei
me recompor, estava quase me sentindo no lugar dela naquele bar olhando ele ir
embora sem lhe dar a chance de defesa. Nesta sessão, lembro de tê-la visto
sorrir. Ela sorriu dizendo que tentou falar com ele após o acontecido, mas ele
havia bloqueado todos os acessos dela a ele e sumiu mais uma vez no mundo, pra
nunca mais voltar e o que ela não entendia, era o porque, o porque de ter
aceitado aquele homem com a vida fora da lei, aceitado viver uma relação sem
perspectivas, aceitado todos os dias em que ele estava ausente de todas as
formas, não havia presença, não haviam mensagens, não haviam ligações. Falamos
sobre isso, de como ela anulava as próprias necessidades em prol de ter alguém
pra chamar de seu e como isso fazia parte de seu transtorno limítrofe. Ela
sorriu mais uma vez e levantou-se. Acabou nossa sessão e ela me perguntou se
podia me abraçar, dei-lhe um abraço, um aperto de mãos e até o próximo
encontro.
Nunca houve o próximo encontro, Clara suicidou-se. Dois dias
após a nossa ultima sessão, recebi em minha sala, uma carta dela em que me
agradecia por ser paciente, apesar dela saber que aquilo era meu trabalho, e
que durante todo o tempo em que nos encontrávamos eu era uma amiga, a única
pessoa com quem conversava, e que ela sentia por não ver-me mais, e nesse
envelope com a carta havia também fotos, fotos de Júlio, fotos de um casal
sorridente, e no verso dizia, “se esse transtorno vai comigo até a morte, vou
tratar de apressar a morte, porque era com ele que eu queria conviver o resto
da vida, e se fiz tudo e não serviu de nada, a companhia que me resta, também
não me interessa”.
Era uma tarde do mês
de dezembro do ano de 2012, passei pra tomar um café em uma livraria e o jornal
do dia estava exposto, até então não havia pensado em ver os jornais, e naquela
capa estava a noticia de que uma mulher de 31 anos, Clara de Albuquerque,
estudante de engenharia e funcionária de uma editora, havia pulado do trigésimo
andar do prédio em que morava e também deixou uma carta a família. Guardo
comigo essa carta, e também a fisionomia do casal feliz naquelas fotos.

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