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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Um amor de perdição.

Ela respirou fundo após um daqueles orgasmos maravilhosos e pensou, “de toda minha loucura a melhor delas é fazer isso aqui valer a pena”.
Clara não gostava do próprio nome porque em nada traduzia a pessoa obscura que ela se considerava, mas também não usava apelidos por que detestava-os, dizia também na frente do espelho várias vezes que só podia ter sido plantada no seio daquela família por um OVNI, cada um com seus pensamentos insanos, e as vezes eu tinha impressão de que ela gostava de ser assim, parecia que era o céu, o inferno, o limbo ou sei lá o quê, mas o fato é que havia sempre intensidade e insanidade. Pensando bem, o céu não, tudo, menos o céu, Clara não acreditava em nada que fosse descrito como perfeito.
Desde que a conheci, ouvia falar de suas conquistas, gostava de homens negros, gostava de homens inteligentes, gostava de homens e de mulheres também, dizia que o importante era a essência de cada pessoa e que sexualidade não é pra ser limitada, já bastam os limites sociais que impõem que não podemos ir até certo ponto por causa dessa coisa chula de “ah, mas vão falar mal de você...”, essa sociedade vestida de hipocrisia que cobra de nós um bom comportamento, quando na verdade, eles mesmos são sujos e alguns ainda dizem-se religiosos. Quando mais jovem não se preocupava com isso e os frutos vieram com o passar dos anos e uma imagem da vida adulta que ainda resplandecia a de uma adolescente deteriorada pelo próprio comportamento. Ela mudou, mas o que fazer com a imagem que preferiam lhe atribuir? Acho que nada, essa história de provar alguma coisa pra alguém é muito cansativa.
Mas vamos falar da sexualidade, como havia narrado anteriormente, Clara divagava em pensamentos após um orgasmo, esteve o dia inteiro trancafiada em um motel com um estranho que havia conhecido pela internet e estava encantada com o intelecto e o aparente mistério daquele negro cor de “minha nossa isso é um pecado”. Haviam batido papo a madrugada inteira e decidiram que se encontrariam pela manhã na beira de uma praia mais próxima, estavam incontroláveis de tesão, e o encontro foi do jeito que ela esperava, nenhum dos dois escondeu a vontade, se cumprimentaram com um beijo ardente, cheio de abraços apertados, caricias pelo corpo, línguas frenéticas, não havia como fugir, entraram no carro dele e seguiram ao motel mais próximo pensando em matar o desejo por uma ou duas horas, assumindo os atrasos em todos os compromissos.
Já era em média 17:00 horas, haviam almoçado, passado algum tempo naquela banheira convidativa, tomaram duas garrafas de um bom vinho, conversado sobre várias coisas, que inclusive era algo que ela apreciava bastante, falaram de trabalho, de família, de política, de sociedade, e em determinado momento, ela aproveitou para dizer-lhe que era “louca”, ele sorriu, incomodada ela perguntou, - qual o motivo da risada?
- Clara se você é louca, o mundo todo precisa ser louco como você, acho que nunca conheci alguém tão normal. É uma louca linda, cheia de autoconfiança, uma pessoa incrível!
Ela passou a explicar-lhe sobre suas alterações de humor, sua sexualidade aguçada, seu costume de falar, falar e falar, são derivadas de um transtorno, transtorno da personalidade limítrofe, mais conhecido por Transtorno Borderline. Ele ouvia tudo com atenção, depois não comentou mais nada, o que para ela significava que ele havia entendido e quando o homem entende isso, ela passa a considerar o encontro único, singular, considerava que homens não tem paciência com mulheres problemáticas, o que não deixava de ser verdade, e por esse motivo, há alguns anos havia decidido que não se apaixonaria, já sofrera demais ao ser abandonada e chamada de louca, conhecia os limites do seu emocional e preferia sofrer da ausência de amor do que a incompreensão e palavras agressivas, conseguia lidar com isso.
Transaram mais algumas vezes, fizeram algumas ligações para justificar ambas as ausências nos compromissos, foi até engraçado, cada mentira contada tão verdadeiramente que dava pra convencer até a sua santidade, o Papa.
As 11:00 da noite o carro dele entrava no bairro onde ela morava, e como sempre fazia com os seus casos, ela pedia pra entrar em uma rua após a que morava, para não dar a residência especifica, afinal de contas, não queria ninguém achando que iria bater na sua porta a hora que quisesse, “não é assim que a banda toca”. A despedida foi longa, muitos beijos, troca de carinhos, e enfim ela desceu do carro, acenou, e o observou ir embora.
Eram 8:00 horas da manhã do dia seguinte quando Clara despertou atrasada e correu pra pegar um ônibus e chegar a faculdade, no caminho as lembranças do dia anterior lhe vinham a memória, lembrou-se de que após a despedida ela bateu a porta do quarto atrás de si e pôs-se a chorar, ela não podia acreditar que aquilo estava acontecendo, estava completamente apaixonada, conhecia aquele sentimento e sabia que não só podia como deveria afastar-se dele, sabia que amores não eram pra ela, e decidiu que aquele dia, aquela pessoa, tudo aquilo seria só uma lembrança boa, apagaria o número de telefone e evitaria vê-lo novamente,  dizia ela sempre “eu conheço os homens, eles gostam mesmo é de uma mulher que não pegue no pé e lhe proporcione orgasmos intensos, a fora isso, não se iluda minha cara colega, ele não vai te propor, você, ele, dois filhos e um cachorro”. Clara não queria de fato um homem pra dividir as alegrias, pra infiltra-lo em sua família, e coisas do tipo, achava aquilo chato, brega, monótono.
Largou da faculdade e se dirigia com pressa ao trabalho pra chegar mais cedo e começar a compensar a falta do dia anterior, e entre uns livros, uns cadernos e uma bolsa bagunçada, um calor dentro do ônibus e o suor fazendo os cabelos grudarem ao pescoço, o celular toca, depois de muito procurar revirando a bolsa, achou, e quem era? Na tela ‘Ligação perdida de Júlio’. Como a ligação não foi atendida, imaginou que ele tentaria novamente, pôs o celular no silencioso e seguiu. Ao fim do expediente pegou no celular achando que teria várias ligações perdidas, já se achando uma babaca pelo que estava a pensar, mas para sua surpresa, não havia nenhuma. Desapontada, pegou suas coisas e se encaminhou para as catracas do trabalho que dava acesso a saída, passou o crachá para liberação e catou na bolsa um cigarro, acendeu, e ia completamente distraída pela calçada quando avistou aquele homem charmoso dentro de uma bermuda branca e uma camisa de botões com estampa xadrez, encostado ao carro com as mão nos bolsos e sorrindo, ela parou, respirando ofegante e logo se imaginou num motel novamente, aquela altura não tinha como pensar em afastar o cara, ele estava ali com aquele sorriso convidativo, que se dane, abraçaram-se e beijaram-se apressadamente e sem dizer uma palavra sequer. Depois de uma conversa animada sobre alguns acontecimentos do dia, estavam em um motel finíssimo,  entre uma transa e outra ficavam se entreolhando silenciosamente, estava com medo daquilo, com muito medo, simplesmente porque era muito bom, e coisas assim tão boas normalmente duram muito pouco, será que o ideal mesmo era se jogar de cabeça pra aproveitar o tempo que aquilo iria durar?  Perguntou como ele a achou no trabalho, ele deu risada e lembrou-a que conversaram muitas coisas na madrugada em que se conheceram e ela havia dito que trabalhava no ramo tal e em tal localização, ele só precisou arriscar, e acreditava que tinha um bom “faro”.  Foi tudo maravilhoso, mais uma vez se despediram com aquele clima de quem não quer ir embora.
Três meses já haviam se passado desde o primeiro encontro de Clara e Júlio, eles não deram nome a relação, mas havia alguma relação,  se falavam todos os dias, trocavam mensagens durante o dia pelo whatsapp, e a noite ficavam algum tempo falando ao telefone, a rotina estava sendo boa, não havia cobranças, não havia ansiedade, de fato, Júlio fazia bem pra ela. Um dia, não houve mensagens, nem ligações, ela pensou que ele estava muito ocupado naquele dia, esperaria o dia seguinte, e nada aconteceu, nem no dia seguinte, nem nos próximos 20 dias que sucederam. Clara estava totalmente absorta nas lembranças ao lado de Júlio, dia e noite se perguntava porque havia caído naquela armadilha emocional, mais uma vez entrou em uma crise existencial, chorava nas madrugadas e se isolava durante o dia, falava com os colegas de trabalho somente o necessário, odiava alguém chamando seu nome e muitas vezes era ríspida com as pessoas, em casa com a família que ela já não suportava, as coisas haviam ficado piores, andava como se houvesse pairado sobre sua cabeça uma nuvem negra. Sabia que não era uma mulher linda de despertar interesse em um homem como aquele, pelo menos agora ela enxergava isso, mas outrora, se sentia confiante, linda e inteligente, o suficiente pra estar a altura daquele cara, Júlio a fazia sentir uma pessoa normal, até andava pensando se deveria falar com ele sobre conhecer a família, passear com os amigos, fazer coisas de casal. Ela estava se odiando. Em uma dessas noites entrou num bate papo e conversou com um cara qualquer, ele chamou pra tomar um chopp, e apesar da avançada hora, ela se arrumou e foi ao encontro dele, parecia um cara educado, começou conversando bem, mas em menos de 20 minutos já pegava na mão dela, tentava beijar e chamou pra um motel, inconscientemente, ela queria achar naquele cara qualquer coisa que lembrasse Júlio, aceitou ir. Clara não se reconhecia como uma mulher carinhosa na cama,  gostava de umas práticas vulgares, despudoradas, e naquele dia ela libertou a senhora obscena que havia dentro dela, falou pra o individuo que não a procurasse mais, deixou-o sozinho no quarto de motel e pegou um taxi pra casa. Chegou em casa sentindo-se a pior das messalinas, sentia nojo do que havia feito e não entendia o porque, uma vez que antes de Júlio ela era bem acostumada e tranquila com aquilo, com a vidinha de merda sem amor que tinha, porque isso agora? Tomou um comprimido de clonazepam e mais um de carbamazepina, há tempos tentava se livrar daquelas medicações que a faziam sentir louca de verdade, mas agora não via outra solução, iria chorar a madrugada inteira e provavelmente sentiria vontade cortar os pulsos, então simplesmente tomou e apagou.
Clara havia sido diagnosticada com transtorno limítrofe após 2 anos de terapia e mais um ano de psicotrópico, odiava a ideia de ter que entrar em um consultório de psiquiatria,  mas devido ao inferno que era sua vida, deu o braço a torcer, nunca fez o uso cem por cento correto da medicação porque ela gostava de beber, gostava de boemia, sair pra dançar, ver gente e ficar bêbada, tinha um enorme prazer em se alcoolizar, como se fosse um impulso pra esquecer alguma coisa, ou ter coragem pra ser quem realmente era sem ter que se culpar, afinal culpar a bebida era mais fácil, e em decorrência desses comportamentos, ela perdia amigos, transava com estranhos e estranhas, gastava muito. Carregava consigo traumas de infância que iam de abandono dos pais e abuso sexual, abandono emocional familiar completo, uma adolescência arredia, improdutiva, perturbada, complicada. Chegara aos seus 30 anos sendo um caco de pessoa, ainda estudava pra não enlouquecer, gostava de ler e debater assuntos importantes e pertinentes, exceto quando entrava em crise e se isolava, ai era questão de tempo, tomar remédios, dormir, se arrastar nas obrigações do dia a dia e esperar melhorar.
Depois de tomar os comprimidos e dormir exageradamente, Clara despertou lembrando de sua aula na faculdade e de algumas coisas que não poderia delegar e teria de ir ao trabalho contra sua vontade, nem sequer se mexia, passou longos minutos olhando para o teto do quarto e absorvendo o barulho da casa, da família que ela não suportava, acabou dormindo novamente, queria se levantar, mas não conseguia, neste dia, faltou a aula, faltou ao trabalho, apenas dormiu. Aquele era o vigésimo dia do silencio de Júlio, ela já concluíra o quanto fora ingênua, logo ela que não se deixava levar por sentimentalismos. O dia se passou, eram em média umas 18:00 horas quando o celular já quase sem bateria, em cima de uma mesinha, fazia barulho de várias mensagens chegando, já que precisava ir ao banheiro, passou na mesinha e deu uma olhada na tela, ficou estática, chegaram 20 mensagens, e a última delas dizia, “eu amo você”, era Júlio que havia respondido cada uma das 20 mensagens que ela havia mandado, uma por dia, a maioria delas dizia “porque? Volta pra mim!”, e uma das ultimas dizia “vou morrer e a culpa é sua”. Antes que ela pudesse abrir todas as mensagens o celular descarregou. Teve de controlar a ânsia, esperar pra ler as mensagens uma por uma, mas sentiu durante esse pequeno espaço de tempo um sentimento bom e crescente, já não havia nuvem negra.
Júlio apareceu naquele bar da praia onde haviam se encontrado a primeira vez, beijaram-se, abraçaram-se, mas não com a mesma intensidade que denota o tesão, sim com a leveza de quem demonstra saudade e carinho, ele propôs que fossem a um motel, de imediato ela recusou, -acho que temos coisas pra conversar, você some por todo esse tempo sem me dizer absolutamente nada, volta e diz que me ama, e já pensa em sexo? Não!
- Sim, de fato temos algo pra conversar, mas não pode ser aqui, prometo que vamos ao motel somente pra conversarmos, me dê essa chance! – falou em tom de quem se desculpa.
Ela concordou e então foram em silêncio, apenas observava ele dirigindo com atenção enquanto divagava sobre o que ele tinha pra contar, percebeu em seu braço um corte, não muito grande, mas com cara de que doeu, só que já estava sarando, alisou o braço e perguntou o que houve, sem respostas. Já na suíte do motel ela sentou-se na cama sem conseguir conter as lágrimas e toda angustia que a consumira durante 20 dias, gritou, esmurrou seu peito quando ele tentou controlar seu corpo enfurecido e se debatendo, com que direito ele fez aquilo? A fez se apaixonar e sumiu! Poderia ter sido qualquer outra mulher, mas porque ela que já tinha problemas demais? A resposta que ela precisava veio num grito que ele deu; “eu faço parte de uma quadrilha!”. De repente só se ouvia o som do ar condicionado ligado. O silêncio não durou muito, logo ela estava abraçada a ele beijando-o e arrancando suas roupas e a transa foi a mais selvagem desde que se conheceram.
Estavam deitados e abraçados olhando para um espelho no teto em silêncio quando finalmente o silêncio foi quebrado.
- Qualquer coisa é melhor do que você dizer não me ama. Você realmente me ama Júlio? Preciso que você diga, preciso ouvir da sua boca, você me ama?
-Eu tive várias dúvidas sobre isso, não sei lidar com sentimentos, mas sinto por você algo diferente e muito forte, sinto sua falta, falta da sua voz, do seu comportamento exagerado e do quanto você fala, sabia que você fala demais? Eu presumo que isso seja amor, mas também preciso saber o que você sente. Clara, eu estarei ausente várias vezes, estarei incomunicável, e algumas vezes pode durar mais que apenas 20 dias, estou apostando todas as fichas nesse momento, será que você vai me esperar todas vezes? Será que vai ficar bem? Será que... são tantas as perguntas, mas sei que não preciso fazer todas elas, preciso saber o que você tem a dizer, como se sente agora que sabe que eu faço coisas que estão fora da lei. E ainda preciso admitir, eu gosto do que faço, não machuco ninguém, mas gosto do que ganho com isso. Esse corte no meu braço, você me perguntou, eu me machuquei porque me joguei de um barranco, estava fugindo da polícia. E sou muito bom nisso!
Clara respirou calmamente e apenas disse: - Estou com você!
Já havia se passado um ano que estavam juntos, Clara se preocupava quando ele sumia, mas não ficava a sua procura, só esperava. Ele sempre voltava, voltava carinhoso, trazia mimos, tinham uma química sexual perfeita. Clara fazia planos, pensava que um dia ele poderia largar essa vida por ela, até que um dia resolveu falar sobre esses planos, e não sentiu muita receptividade da parte dele, sorriu e mudou de assunto. Ela percebeu que não deveria insistir, talvez fosse muito cedo pra falar no assunto.
Desde o ultimo encontro, no prazo de seis meses, haviam se visto apenas duas vezes e Clara estava bem ocupada com uns projetos do seu trabalho, que não sentiu tanta falta, faltava um mês para estar de férias e em uma conversa pelo telefone, pediu pra que ele se organizasse pra passar com ela pelo menos uma semana das férias, ele concordou, disse que faria o possível para fazerem uma viagem. O mês das férias chegou, estava  entusiasmada, há um tempo não tomava remédios, se sentia bem, pelo menos achava que sentia. Mandou mensagens querendo combinar em qual semana viajariam, sem êxito nas respostas. Estava de férias já há 15 dias, havia saído com amigos, curtido praia, cinema e aquela espera que começou incomodar. Recebeu um convite pra viajar pro litoral do estado vizinho e decidiu ir sozinha mesmo. Aquela semana foi longa, ela foi a praia todos os dias, curtiu uma piscina e em alguns momentos percebeu que andava bebendo muito, andava de ressaca há uns dias. Estava tentando esquecer que ele sumiu quando ela mais o esperava, pensava que se ele havia prometido, ele cumpriria. Antes de voltar pra sua cidade, decidiu ir em uma boate com um casal de amigos, acabou ficando bêbada, falou sobre a condição dele para aquelas pessoas, não aguentava mais guardar pra si. Arrependeu-se, mas já era tarde. A madrugada de musica e bebedeira terminou num quarto de motel com o casal, coisa que mais tarde ela também arrepender-se-ia amargamente.  Naquele dia, ela deixou-se fotografar, não estava dando-se conta do perigo que isso representa  nos dias atuais. Clara voltou pra casa com uma certeza, não iria conseguir viver daquele jeito, ou enlouqueceria de vez, adoeceria de amor ou na melhor das hipóteses, teria uma doença no fígado se todas as vezes que ficasse mal, afogasse isso nas garrafas de cerveja.
O mês havia praticamente acabado, faltavam cinco dias pra voltar ao trabalho quando descobriu todas as mensagens enviadas haviam sido finalmente entregues a Júlio, ele estava lá “online” e não respondia uma sequer.  Enviou mais uma “por onde você andou?”, mas era tarde da noite, a única resposta que obteve foi “durma, depois conversamos”, “você é louco? Talvez até mais louco que eu”, “durma Clara, depois nós conversamos”.
Obvio que ela não dormiu, ficou ansiosa, estressada, tendo uma crise de nervos que fazia seus músculos sofrerem espasmos, não controlava aquilo, era raiva, muita raiva, nem sabia de onde vinha tanta raiva, e começou a ficar paranoica, não era possível que ele tinha a tinha deixado esperando por um mês e agora nem sequer ela merecia uma explicação? Aquilo era imediato, estava consumindo-a por dentro. Tomou um de seus remédios e acabou dormindo um pouco, mas já eram cinco da manhã, as oito ela já estava de pé e se recusava a fazer qualquer coisa naquele dia que não fosse resolver esse assunto, tomou um banho decidida, se arrumou e saiu.
Já estava naquele bar de sempre tomando uma cerveja as dez da manhã e ligou várias vezes pra ele, sem sucesso. Tomou mais uma, duas, três, continuava ligando e só ouvia a voz da caixa eletrônica, até que finalmente, o telefone chamou, “alô? Clara?, onde você está?”, “estou no mesmo bar de sempre, na praia, vou esperar apenas meia hora até que você esteja aqui, caso contrário, esqueça que um dia me conheceu”.
E ele chegou. Não a tocou, não a abraçou, não havia aquele olhar sedutor. Estava frio e distante e ela não conseguia entender, se era ela quem havia ficado esperando um mês por uma viajem romântica, espere ai, eu sou a vitima aqui, o que ele está pensando? Fez menção de começar a falar mas ele não deixou.
-Clara, eu sempre achei todas as suas loucuras um charme, te acho uma pessoa incrível e não quero perder o respeito por você. Todas as vezes que eu te prometi algo eu cumpri, talvez não no seu tempo, mas no meu tempo, talvez muitas coisas tenham te desagradado com relação as minhas ausências e eu te entendo, entendo, mas por isso aqui eu não te perdoo.
Foi quando ele puxou o tablet e começou a abrir uma página do facebook que ela nem sequer sabia que Júlio usava, e lá estavam várias fotos daquela noite de férias em que ela esteve em um  motel com o casal de “amigos”, a maioria das fotos cortava o seu rosto, outras foram editadas e o rosto foi borrado, estavam postadas em um grupo de sacanagem, Júlio a reconheceu pela cor da pele, as mechas no cabelo em tom de vermelho e principalmente, as suas várias tatuagens espalhadas pelo corpo, incluindo uma que havia feito recentemente na altura da cintura e trazia escrito “carpe dien”, em referência ao dia em que se conheceram. Não havia como negar aquilo e ela começou a tentar se explicar sem sucesso, ele apenas disse que seguisse seu caminho e o esquecesse, ao levantar e dar as costas, Clara só conseguia pronunciar entre as lágrimas, a palavra covarde. Soluçando copiosamente, vi-o entrar no carro, sem olhar pra trás, dar partida sem olhar pra trás, sumir por entre os outros carros sem olhar pra trás. Naquele dia Clara só chegou em casa perto da meia noite, mal conseguia descer do taxi, estava completamente bêbada, com os sapatos nas mãos, os cabelos desgrenhados e as roupas sujas. A família já dormia e não a viu chegar, conseguiu tomar um banho e dormir depois de vomitar quase a própria alma.
Os dias se passaram até que chegou a data de sua volta ao trabalho e ela estava lá. Silenciosa, com uma fisionomia meio perdida, mas desempenhou o seu trabalho sem grandes emoções, recebeu as boas vindas dos amigos sem grandes emoções, apenas respondia “obrigado” sem mal levantar o olhar.
No mesmo dia em que voltara ao trabalho, eu e Clara nos conhecemos, eu havia sido indicada a ela por manter uma sala para sessões de terapia bem próximo ao seu a seu local de trabalho. Começamos muito mal, ela não sabia porque havia procurado uma terapia, mas disse que se eu pudesse apenas ouvi-la sem dizer nada, ela voltaria sempre, eu concordei, claro que em algum momento ela me permitiria fazer intervenções , mas eu esperaria o tempo dela.
Nos encontrávamos todas as semanas, ela sentava, falava sobre sua infância, sobre seus projetos falidos, sobre os fracassos amorosos, sobre os problemas dos amigos, mas eu sabia que havia algo bem maior a se contar. Seguimos em nossos encontros, semanas após semanas, até que um dia ela me perguntou porque das pessoas serem ruins, não sabia se ela queria de fato respostas ou se eu apenas deveria ouvir, ai ela me encarou nos olhos e disse:  -ele foi embora, me deixou porque as pessoas são ruins, sabe, eu posso ser louca, mas as pessoas, elas são mesmo ruins. Levantou-se e foi embora. Ela havia encontrado o fio da meada, se estava perdida ou seja qual fosse o motivo que não lhe permitia falar, naquele dia eu sei, ela quebrou as correntes.
Nas sessões que seguiram, pouco a pouco fui montando o mosaico da vida dela, tantas peças  perdidas, tantos traumas, uma vida adulta povoada por monstros de infância e adolescência, tanto medo da rejeição, tanto medo do abandono, e ali estava ela completamente abandonada. Determinada vez sugeri que alguém da família dela poderia vir conversar comigo caso ela quisesse e permitisse, pra que eu pudesse ter mais informações sobre a óptica de quem a conhecia muito mais que eu. –Minha família  não se importa comigo de fato, vai perder seu tempo com eles, mas se quiser, pode ligar. E me passou um numero de telefone. De fato liguei, falei com alguém que disse ser uma pessoa muito ocupada e não tinha tempo pra se preocupar com casos perdidos. Passei a absorver a vida de Clara pra mim, esperava por ela ansiosa todas as semanas, já havia me dado o aval para as intervenções necessárias, pouco a pouco me contou sobre toda a história de Júlio, e ao fim, eu precisei me recompor, estava quase me sentindo no lugar dela naquele bar olhando ele ir embora sem lhe dar a chance de defesa. Nesta sessão, lembro de tê-la visto sorrir. Ela sorriu dizendo que tentou falar com ele após o acontecido, mas ele havia bloqueado todos os acessos dela a ele e sumiu mais uma vez no mundo, pra nunca mais voltar e o que ela não entendia, era o porque, o porque de ter aceitado aquele homem com a vida fora da lei, aceitado viver uma relação sem perspectivas, aceitado todos os dias em que ele estava ausente de todas as formas, não havia presença, não haviam mensagens, não haviam ligações. Falamos sobre isso, de como ela anulava as próprias necessidades em prol de ter alguém pra chamar de seu e como isso fazia parte de seu transtorno limítrofe. Ela sorriu mais uma vez e levantou-se. Acabou nossa sessão e ela me perguntou se podia me abraçar, dei-lhe um abraço, um aperto de mãos e até o próximo encontro.
Nunca houve o próximo encontro, Clara suicidou-se. Dois dias após a nossa ultima sessão, recebi em minha sala, uma carta dela em que me agradecia por ser paciente, apesar dela saber que aquilo era meu trabalho, e que durante todo o tempo em que nos encontrávamos eu era uma amiga, a única pessoa com quem conversava, e que ela sentia por não ver-me mais, e nesse envelope com a carta havia também fotos, fotos de Júlio, fotos de um casal sorridente, e no verso dizia, “se esse transtorno vai comigo até a morte, vou tratar de apressar a morte, porque era com ele que eu queria conviver o resto da vida, e se fiz tudo e não serviu de nada, a companhia que me resta, também não me interessa”.
Era uma tarde  do mês de dezembro do ano de 2012, passei pra tomar um café em uma livraria e o jornal do dia estava exposto, até então não havia pensado em ver os jornais, e naquela capa estava a noticia de que uma mulher de 31 anos, Clara de Albuquerque, estudante de engenharia e funcionária de uma editora, havia pulado do trigésimo andar do prédio em que morava e também deixou uma carta a família. Guardo comigo essa carta, e também a fisionomia do casal feliz naquelas fotos.




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